9.1.18

O parto parte II



Saí da avaliação com ordem de internamento e com a pipi amparada por uma fralda da Big Mamma.
Quando me abeiro do homem, na sala de espera, já ele confraternizava alegremente com outros exemplares passivos no processo de expulsão das criaturas, ou seja, os outros espermatozoides responsáveis pela coisa. Vocês não sabem, mas em qualquer canto do mundo o homem conhece alguém. Seja porque combateu com ele na Chechénia. Seja porque o assistiu numa das 634 quedas de mota. Ou seja, por motivo nenhum. Antes que a outra grávida se queixasse da primeira contracção já estávamos os quatro a tirar selfies.
Rapidamente nos instalaram. E mais depressa que ele adormecesse as minhas dores passaram do diminutivo para o aumentativo. Já o ronco dele concorria com o choro dos bebés quando chamei, pela primeira vez, a enfermeira. Tencionava partilhar-lhe a minha dor na expectativa que me valesse. Ora dos quase quatro dias que passei no hospital foi com esta senhora a pior interacção, não por ter sido má profissional, foi apenas indiferente, numa unidade em que todos, sem excepção, primaram pela empatia. Começou por levantar as sobrancelhas e eu processei, "amanhe-se, não há nada a fazer". E processei muito bem. Mas, afinal havia. Uma injecção no rabo. Quer dizer, não havia. Vocês que ainda não estão oficialmente em trabalho de parto, apesar de terem ruptura, recusem a injecção, só servirá para uma suadela enquanto vos picam o glúteo. A senhora enfermeira fez ainda questão de me informar que a o meu calvário seria longo, segundo ela, continuava muito fechadinha. Entretanto, o homem dormia, encolhido no cadeirão, com as mãos entre os joelhos. E eu agonizava. Não me lembro quanto tempo aguentei até voltar a chamar a senhora. Estava a nascer o dia. Lançou-me o mesmo olhar e um pouco contrariada avisou-me que iria para o bloco de partos. A informação acordou o homem.
Segui num misto de entusiasmo porque passava ao next level, mas com muito medo, como se entrasse no ground zero. A partir dali era uma espécie de vai ou arrebenta.
O bloco de partos é um espaço muito técnico munido com todos os apetrechos necessários para o desempenho do pessoal de saúde e para o sucesso do processo que culminará no nascimento de um bebé. Espera-se que mãe e filho terminem de boa saúde. No pequeno aviário onde o pai vestirá o bebé pode ler-se um manual tipo "caso o bebé não respire faça primeiro isto, depois isto, a seguir aquilo". Na cama, ao nosso lado e na cabeceira estão sustentados os utensílios caso nos dê para entrar em paragem e quinar... às tantas vem-nos à cabeça as experiências macabras dos partos da idade média. Vale-nos o homem no cadeirão do lado esquerdo a jogar clash royal... Seria uma tragicomédia, falecer enquanto ele mata personagens estúpidas no campo de batalha.
Por esta altura, já eu estava num sofrimento inqualificável, absolutamente insuportável para o comum mortal. Imediatamente aceitei a epidural quando ma ofereceram.
Sentei-me na posição indicada, agarrei as mãos do homem, mexi-me indevidamente, suei as mãos do homem, fechei os olhos, respirei fundo... e entra na minha box o enfermeiro para solicitar a presença da anestesista num emergência. Ah???? A sério?????
 - Não se importa? Aguenta mais um bocadinho? - questiona-me.
Porque é que nos dá para o altruísmo e a solidariedade nestes momentos????
 - Sim, aguento... haverá alguém a precisar mais do que eu - consenti.
Bastaram cinco segundos para me arrepender. As contrações iam matar-me e eu não sou lamechas. Julguei-me largada, esquecida, sonhava com o momento em que a anestesista entrasse novamente porta dentro e me devolvesse a vida (porque eu estava a morrer de dores).
E entrou. E novamente perninhas à chinês, mãos no homem, suor, algumas reprimendas...e Paz. Que droga tão boa! Entrei nas redes sociais, postei, dormi, o homem assediou-me...
Foram mais 12 horas até a minha filha nascer num carrossel de emoções e dores. As contrações voltavam mais pujantes à medida que a epidural diminuía o seu efeito. Ainda assim, consegui sempre aguentar intervalos de duas horas.
Levantei-me, tomei banho, sentei-me na bola, comi gelatinas, falei com as minhas filhas pelo facetime e com os amigos nos grupos de conversação.
Perto das 20h comecei a sentir uma vontade estranha de puxar e não sabia o que fazer. Se aceder aos demandos do corpo ou, se me deixava estar quietinha... O homem dizia "puxa", mas o homem acha que sabe tudo. Lá voltei a chamar a enfermeira. Permitam-me abrir aqui um parêntesis para honrar a parteira que me assistiu em todo o trabalho de parto, mas que ironicamente acabou por não me fazer o parto. Não sei o nome dela. Era baixinha com o cabelo claro, daquelas profissionais da velha guarda sempre acompanhada por uma estagiária. Tornou a minha experiência ainda mais especial. Teve toda a paciência e atenção do mundo. Esclareceu-me todas as dúvidas e exageros. Sossegou-me. E nunca se mostrou incomodada com a espontaneidade do homem que veio muitas vezes acompanhada de vernáculo. Nunca a esquecerei. Antes de sair apresentou-me a colega que a substituiu e acabou por me acompanhar apenas no momento da expulsão. Uma enfermeira mais alta, carrancuda, mas igualmente muito profissional. Trocamos poucas impressões, uma delas foi "puxe" e eu puxei, duas ou três vezes. E a minha filha nasceu naquele que foi o momento mais lindo e emocionante da minha vida.

Nota de redação: Todas as mulheres, estando grávidas pela primeira, segunda, terceira ou mais vezes, reservam para a gravidez e especialmente para o parto receios e medos. Estamos perante um processo natural que corre, tendencialmente, bem, mas existem complicações a que todas estamos sujeitas (a Constança nasceu de uma cesariana de urgência por prolapso do cordão, é uma condição rara e grave que podia ter-lhe custado a vida). O parto da Maria João foi perfeito, melhor do que pedi nas minhas preces. Foi uma espécie de parto de filme que culmina num momento lindo e emocionante.
É verdade que as contrações não são humanamente suportáveis, mas a epidural é milagrosa e torna o trabalho de parto algo natural e pouco penoso.
Uma última palavra ainda para o pós parto, foi absolutamente maravilhoso, não tomei um único bénuron. Dores: zero. No dia seguinte estava capaz de parir outra vez.

Este é ou não é o texto mais pró-natalidade que leram?

2.11.17

O parto parte I


Com 39 semanas de gestação, tendo encontro marcado para o dia seguinte (22 de Setembro) com o meu ginecologista, acreditei que ainda tinha tempo para ver todas as temporadas da Única Mulher e, quiçá, fazer o Iron Man.
Na minha modesta opinião a criatura ainda estava ao nível das amígdalas e atormentava-me a possibilidade de só desovar às 41 semanas (6 de Outubro era a segunda data prevista para o parto).
Só parei de trabalhar quando entrei nas 39 semanas, mas em boa verdade, vim para casa e só acelerei o ritmo. Tinha mil e uma coisas que ainda queria fazer antes de a criatura nascer.
Na quinta-feira, dia 21, mantinha a ladainha do "estou que nem posso". A minha imagem seria de tal modo, vá, grande, que nessa manhã, ao pequeno almoço, não esqueço os olhos de compaixão de uma amiga.
Passei a tarde em modo fêmea que se prepara para parir (mas não percebi). Em boa hora, coagi a minha filha mais velha para me fazer uma pedicure caseira (na verdade foi só um pretexto para me massajar os pés) e estendi-me no sofá.
Recolhi a Constança na escola e voltei directa para a casa de banho.
Franzi as sobrancelhas quando me limpei, mas estava em negação. Baixou em mim um(a) elefanta e, às tantas, julguei que pudesse manter a gestação até aos 22 meses.
Já com o homem em casa, quando voltei a abancar no sofá, só demoraram 10 segundos para perceber o que me estava a acontecer, "rebentou-me a bolsa!!!!!!".
O homem pediu calma perante o meu ataque de nervos. Como assim rebentou-me a bolsa????? Já????? Só tenho 39 semanas!!!! E estas coisas só acontecem nos filmes. A mim não me rebenta a bolsa, rebentam-na no hospital com uma espécie de cotonete xxl.
Subi ao quarto para me banhar e a descarga ia ganhando proporções de cheia. Mas, eu continuava desconfiada. As miúdas também. A Constança, por exemplo, deve ter achado que a mãe ficaria grávida para sempre e que a irmã nunca seria mais do que uma barriga. Às tantas, as miúdas cá de casa desataram numa choradeira. A mãe saía de casa sem previsão de regresso.
O homem ainda comeu arroz de feijão com sardinhas e insistiu que o acompanhasse. Recusei. Só me ocorria a hipótese de uma entubação e ter nas entranhas uma refeição assim tão ligeira.
Ao sair do carro, já no estacionamento do hospital, descarreguei líquido capaz de encher uma banheira de hidromassagem. Entrei no serviço de cadeira de rodas, mas rapidamente a enfermeira pediu que me fizesse à vida e desse às perninhas. A segunda coisa que fez foi dar-me uma fralda.
Após o CTG, fui vista pelo médico (açoriano, gostava de motas e dizia umas coisinhas em russo...imaginem a cavaqueira, só faltou pedir duas vodkas). Primeiro toque. E a confirmação que, apesar da ruptura, o útero continuava muito fechadinho. Por outro lado, a dores iam-se instalando. Primeiro, ao jeito isto não custa nada. Depois, olha afinal mói um bocado. Até que filhas da p***, esta merda não se aguenta, f***-**!!!! 

Continua...

7.9.17

Estado da relação (com a barriga) aos 9 meses.


Ora bem, vamos lá ser objectivas porque nesta fase até bocejar dá uma trabalheira desgraçada.
Bom, a matemática é ciência que deixa de existir. Não contamos o peso, não contamos as semanas, não contamos os xixis nocturnos, não contamos as vezes que nos perguntam "ainda grávida?", não, só me apeteceu engolir um melão casca de carvalho. Não contamos os olhares de misericórdia quando te vêm arrastar pela rua, pelos corredores do trabalho, pelas filas do supermercado... ou os olhares de susto perante o teu nariz ou o tamanho das tuas mãos e pés.
Tenho saudades do contacto visual com a minha vagina e com os meus pés, vistos na vertical. Também sinto muita falta dos meus ossos e de dormir de barriga para baixo.
Não me consigo calçar e dá jeito ter uma Carolina ali à mão. Esta parte e a das massagens ao deitar toleram-se. "Ai meu Deus!!!! Vocês reconhecem-me??? Sabem que continuo a ser a vossa mãe???? Estou tão malzinha, não aguento mais. O melhor é pedir que me internem já. Os meus pés, meu Deus, parecem as patas do Poupas... não sabem quem é o Poupas? Pronto, parecem as patas da Popota". E as criaturas muito assustadas com aquela choradeira enquanto a Constança reforça a sua posição, "eu só vou ter filhos se forem adoptados".
Outros constrangimentos provocados por uma barriga de nove meses? Talvez ninguém se tenha lembrado disto, mas estacionar o carro torna-se um exercício semelhante a treino militar. Não tens ângulo de rotação para os retrovisores com uma barriga que se te distrais engole-te.
Finalmente, os toques... essa maravilha que é enfiarem-te os dedos, a mão, o punho... o que for... Já estou por tudo, desde que não me cheguem às amígdalas.

5.9.17

Chá de bebé







Foi há um mês que juntei os amigos em casa e numa cajadada matei dois coelhos. Assinalei os meus 35 anos (verdade... 35 anos, estou a meio caminho antes de entrar nos entas) e fiz o chá de bebé da pequena criatura in útero. Em bom rigor, foi só mais um pretexto para uma tainada das boas. Amigos, cerveja fresquinha, gordices e prendinhas.
Entretanto, uma ressalva apenas para a desactualização da proporção da gestante. Estamos visível e assustadoramente maiores.

cake design: Bolos com encanto

20.7.17

Este post é capaz de chocar e não é por ter uma gaja desnuda.



Vocês que batem os olhos numa grávida e acham assim a coisa mais fofinha do mundo e dão convosco a pensar que adorariam passear aquela barriga e desfrutar de tal estado de graça, não desatem já a pinar como se não houvesse amanhã.
Leiam o que tenho para lhes dizer.
A não ser que se chamem Carolina Patrocínio não acreditem quando vos dizem "estás tão linda, só tens barriga". É mentira!!!! A verdade é que tens celulite em doses cavalares, mamas que envergonham a Pamela Anderson em Baywatch, gengivas inchadas que vão sangrar sempre que escovas os dentes, dores ciáticas que te percorrem a lombar até aos glúteos...espera... glúteos??? Qual glúteos? A não ser que sejas a Blaya também deixas de ter glúteos. Xixi... passas a acumular xixi. Basta o gole de água que deste só para tomar a vitamina e corres desenfreada para a sanita. À noite piora. O meu recorde foram seis incursões nocturnas à casa de banho.
O umbigo é esta coisa maravilhosa que vêm na imagem. Na minha casa dizemos que é a campainha que nos permite comunicar com a criatura. E já que chamamos a dita cuja à conversa, por esta altura deve ter encontrado um trampolim nas minhas entranhas e julga-se Simone Biles em barras paralelas em preparação para o ouro olímpico.
Lembram-se do Popas? Aquele passarão amarelo, meio parvo, da Rua Sésamo. Foquem-se nos pés dele. Os vossos ficarão assim. Ok, não mudarão de cor, refiro-me ao tamanho. É provável que aumentem um número no calçado. Meninas que já calçam 39, estamos juntas ah!
Finalmente, temos de falar de sexo. Nananinanão, não me refiro ao sexo da criança, por aqui já toda a gente sabe que só nos assiste gajedo. O sexo, propriamente dito. Chegadas a esta fase esqueçam lá os kamasutras desta vida e as vossas posições preferidas. Belly is the boss que é como quem diz fazes como a barriga te deixar fazer.
É maravilhoso o terceiro trimestre.
E a azia? Já falei na azia?

28.6.17

O que tem a gravidez a ver com o Salvador Sobral?



Enquanto esperava para colher sangue apercebi-me do alvoroço em torno de qualquer piada do Salvador Sobral. No concerto solidário pelas vítimas dos incêndios, os portugueses - ou a maioria dos portugueses que estão na rede - queriam pegar no homem que há pouco mais de um mês lhes devolveu a esperança e pegar-lhe fogo. Queime-se já o infeliz que teve a ousadia de brincar depois de mais uma actuação brilhante e que se foda que há uma semana tenha sido o primeiro a ceder toda a receita da venda do seu álbum no concerto de Ourém.
Não descortinei imediatamente a piada porque os utilizadores da rede, mais importados com a discussão às tantas já se atacavam uns aos outros desviando-se do tema, até que uma alminha decide publicar na íntegra a flamejada observação, "vocês aplaudem tudo o que eu faço, vou dar um peido e ver o que acontece". Aconteceu que aplaudiram.
Primeira observação: não entendo tanto alarido porque desde que começou o fenómeno Salvador sempre se percebeu que o puto se estava a cagar.
Segunda observação: é nestas merdas que os portugueses se espalham. Somos um povo do caraças num país do caraças. Tenho um orgulho imenso no meu sangue lusitano, mas a nossa pequenez reflecte-se - ainda - na incapacidade de nos rirmos, especialmente se for de nós próprios. Continuamos a ser um povo fechado entregue às dores que carregamos nas cruzes como se uma gargalhada estridente fosse presságio de um destino maldito que se cumprirá dali a um par de horas. Parece que estou a ouvir a minha mãe, "vai-te rindo rapariga, olhe que é mau sinal".
Na minha modesta opinião a piada do Salvador foi pura humildade de quem ainda não encontrou o seu lugar no carnaval da fama, "porra eu não sou ninguém, não faço nada demais e vocês aplaudem...deixa cá ver se der um peido...". Onde é que isto fere??? E atentem que estou grávida com a sensibilidade nos píncaros, ainda ontem chorei com um excerto da Bela e Monstro.
E agora, perguntam vocês em coro: e o que tem o Salvador a ver com a gravidez? Nada, mas foi o pretexto que encontrei para uma queixa que está há mais de seis meses a provocar-me comichão e que tem a ver com as pessoas. Lá terei que me repetir novamente, os portugueses são maravilhosos, mas depois há questões para as quais não estão ainda devidamente sensibilizados ou não desenvolveram ainda sentido cívico e isto nota-se tanto mais nos aglomerados populacionais menores.
Passo a explicar, estou pelos cabelos de me sentir invisível, mormente nas filas dos supermercados, mas já me aconteceu em todo o lado, até debaixo de um calor de 40 graus com seis pessoas à minha frente para levantar dinheiro. Chega a ser parvo o esforço que fazem para não mexer a cabeça e darem com uma monumental barriga. Quase não pestanejam, não vá dar-se ali um estrabismo qualquer que os leve directos ao ventre de uma mãe em sofrimento que a única coisa que queria era ver cumprido o seu direito ao acesso prioritário.
Entendo que em grande parte da gestação nem seja perceptível e que dependa muito da grávida querer beneficiar da prioridade chamando a atenção dos responsáveis, mas nesta fase???? Não basta o tamanho da barriga ainda lhe juntámos a respiração ofegante e as mãos na anca só para não as levantarmos a todos os santos pela alma desses pecadores indiferentes a quem carrega vida.
Já me aconteceu reclamar a minha prioridade, o operador de caixa pedir-me que avançasse e ter quem me interpelasse, "passou à frente porquê????? Ai.... está grávida, gravidez não é doença". Levares com uma pescada congelada nos queixos também não é crime em legítima defesa, pois não.
No início da gestação, uma funcionária de um supermercado cujo nome não vou revelar, mas adianto que começa e termina com um L, disse-me que a prioridade só se punha a partir dos cinco meses!!!! Ah????? Tem cinco segundos para chamar o seu superior.
Li recentemente uma grávida de Lisboa a escrever precisamente o contrário, que desde que no final do ano o decreto lei foi actualizado com penalizações mais severas as pessoas estavam mais sensíveis e conscientes dos deveres cívicos e que em nenhum momento da sua gravidez tinha tido uma má experiência. Bom, infelizmente, estando eu na terceira gestação não noto, absolutamente, nenhuma melhoria comparativamente com 12 anos atrás.
Portugueses, nós somos um povo do caraças, mas conseguimos ser ainda melhores. Mas, isto sou eu que digo, não venha daí nenhum bife criticar o meu povo que não respondo pelas minhas hormonas.

22.6.17

O nome!



Como sabem, achei que carregava genes masculinos e assente no género não havia dúvidas relativamente ao nome da cria: João.
Raramente, uma alma mais afoita confrontava-me com a questão, "então e se for menina?". Revirava os olhos e fitava-a com a mesma compaixão que fitava os estagiários quando me perguntavam se deviam colocar pontos de exclamação no final de uma frase. Menina?! Mais depressa trago na barriga um unicórnio do que uma menina. Eu sou assim, tenho um lado pomba gira adormecido.
Minha rica criatura, a mamã estava em negação. Meninos??? Nem pensar. Figuras cheias de asteróides anabolizantes, de pernas ligeiramente abertas espalhadas pelo quarto. Cabelos sem laços. Rostos pálidos sem pingo de blush. Não ia dar.
Se eu pudesse cobria o mundo a trincha cor de rosa. E é neste mundo de (mãe de) meninas que me revejo.
Quero para a nossa filha (e para as outras que já partilhamos) que sonhe abrir portas para ir para a escola montada num unicórnio brilhante com uma saia de tule e um rastro de estrelas ao mesmo tempo que uma cauda dourada lhe traça o caminho descrevendo formas florais cheias de purpurinas e brilhos.
O nome? Maria João. What else?

#MaryJane
#umdiateriaoutr(a)Joãonaminhavida
#Pai

12.6.17

As grávidas não são/estão gordas!

Homens desta vida, repitam comigo: as grávidas não são/estão gordas!!!!! Mas, façam-no conscientemente. Inspirem. Expirem. Fechem os olhos em consentimento e interiorizem essa merda. As grávidas são grávidas! As gordas são gordas e resultam, na maioria das vezes, de um processo de acumulação de gordura. Nós, as grávidas, resultamos de um processo totalmente diferente. Não querem que explique o processo da concepção, pois não?!Aumentámos porque cresce vida dentro de nós. É um estado de gestação temporário (cerca de nove meses) que termina com o nascimento da nossa cria.
O homem adora chegar ao pé de mim com o ar mais ternurento que consegue e lançar pérolas do tipo, "ó minha gorda, estás bem?". Ontem, mesmo ao deitar-se decidiu inovar no romantismo, "estás cada vez mais parecida com um panda, tão redondinha". Se eu não soubesse que seria encontrada numa vala cheia de insectos em decomposição espetava-lhe um alfinete no olho. E por esta ocasião ainda não tinha lido o maravilhoso comentário que me deixou no facebook a propósito desta foto:



A modos que gostava de pedir a vossa colaboração e os vossos contactos para três senegaleses de bom porte darem uma tareia ao meu homem.
Fico eternamente grata.

9.6.17

Amizades.


É um vale tudo verdadeiro, derradeiro e puro. Não é canto escuro, mesmo no lado obscuro de quem não esconde nada. A amizade não procura paridade, igualdade ou semelhança, é só afecto puro, sentimento duro, verdade sem agonia ou vaidade.
Não interessa idade, não tem que ser antiga, é apenas como uma cantiga daquelas que não sai. Amizade também é espontânea, não é só a paixão que é momentânea. Nem sempre tem enredo nem esconde segredo.
A amizade é tão simples quanto complexa, porque é densa, mas não adensa o que não condensa e nos dá paz.
A amizade boa nunca envelhece, como o amor vivo permanece. E acontece. Basta querer. Amar sem saber e deixar acontecer.


Nota de redacção:

Já fui pessoa poupada em afectos. Serei ainda, às vezes. Não tenho o beijo ou o toque ao desbarato na algibeira, mas noto-me cada vez mais extravagante.
O que de melhor podemos fazer é permanecermos nas amizades. Não como quem busca consolo, mas como quem encontra paz.
Os amigos só nos traumatizam quando não o são. Sendo. São-no sempre. E não tem a ver com o número, tem a ver com a qualidade humana e o princípio é simples. Só se recebe na medida do que se dá. Não se poupem.

8.6.17

Como????Onde????Quando????


A maior Zara do distrito de Braga vai abrir em Guimarães???

Oh diabo!!!! O cartão até vai chorar.
Brincadeirinha, homem, isto nem me interessa nada. Tipo, estou grávida. Tenho mais 10 quilos no lombo. Quero lá saber que a maior Zara do distrito abra no Espaço Guimarães. Aliás, até me deprime. Quem é que quer saber de compras quando as temperaturas convidam a programas familiares, na praia ou no campo, crianças a quem chamamos vezes incontáveis para colocar protector e que mesmo assim chegam ao final do dia mais queimadas do que os pimentos do S. João, mantas estendidas, insectos paraquedistas, geleiras carregadas com toneladas de minis que nem posso beber... A sério...tenham lá vergonha.

(Dia 10 é quando mesmo?).

7.6.17

O sexo.


Estão a ver o tão afamado instinto maternal? Esqueçam. Não se armem em ecógrafos e parem de ler fóruns brasileiros de maternidade.
Euzinha, podia jurar por todas as alminhas que estava à espera de um rapaz. É que estava absolutamente convencida disso. Porquê? Porque sou mãe. E as mães sentem. Porque enjoei menos. Tive azia mais cedo. Menos fome do que nas gravidezes anteriores. Estava a engordar menos, também. Mas, havia lá alguma dúvida que ia experienciar a maternidade no masculino?!Até já estava a projectar toda uma divisão ao estilo Marvel, cheia de action figures.
Mais ridículo ainda, completamente cega pela minha presunção adivinhatória despachei roupa de menina, "podes colocar aí na caixa das oferendas, já não vamos precisar disso".
Ainda antes das 12 semanas, o meu ginecologista avançou, sem certezas, que deveria ser outra menina.
Na primeira ecografia, foi possível colocarem o sexo da criança em percentagem, "diria que é uma menina...80%... mas já me enganei".
O homem que até aqui jurava por todas as matrioskas que era uma menina, passou a acreditar na regra que confirma a excepção. A cria passou a ser menino. Até que para gáudio das três gajas que já temos em casa, o ginecologista imprimiu a sua vagina para que se dissipassem as dúvidas.
A modos que a quem dei roupa das minhas criaturas é favor devolver. A gerência agradece.

30.5.17

#Jamor


Nunca tinha ido ao Jamor. Fui, a primeira vez, grávida numa proporção considerável para causar alguns incómodos e desconfortos.
A saber:
- a quantidade de urina acumulável num percurso de 300 km até Lisboa.
- a dimensão do veículo manifestamente insuficiente para uma gestante e o progenitor da sua cria com mais de 1.80m.
- o percurso desde o estacionamento até ao estádio, parecia a escadaria de Nossa Senhora da Penha no Rio de Janeiro.
- o homem com acessos de bipolaridade, "foda-se para a próxima ficas em casa" e "vá bebé, eu ajudo, é só mais um bocadinho". E tu agarrada à barriga a imaginares-te com 9 centímetros de dilatação.
- toda a gente a enfardar cerveja e a subir para o tecto dos autocarros e tu sentada num tronco cheio de resina onde o teu rabo já mal cabe.
- a entrada para o estádio. Ocorre-me a cena do Rei Leão com a manada em debandada que resulta na morte do Mufasa.
 - depois de subir a escadaria da Penha debaixo de sol com uns 40 graus eis que chove. Olha tão giro! Jogo molhado, jogo abençoado. Até dá para um cântico "e a chuva para nós é sol...e a chuva para nós é sol...". Isto é épico! Parece um filme do Mel Gibson. A chuva, os cachecóis abertos, o hino do Vitória, as senhoras com o cabelo e as tshirts molhadas...ok. Foi giro, dá para voltar o sol? Atingimos o nível de tolerância à chuva...Como assim não dá? Já cantamos o hino, já gastamos as baterias dos telemóveis a fazer vídeos. Esta é a parte em que é suposto o sol voltar.
- e mais fritos, de mala aberta na berma da estrada. Azia!!!! Refluxo gástrico. E ainda pior benfiquistas a buzinarem nos carros.
- a quantidade de urina acumulável num percurso de 300 km até Guimarães.
 - já disse que voltei encharcada?
- a dimensão do veículo manifestamente insuficiente para uma gestante e o progenitor da sua cria com mais de 1.80m que ainda por cima ressona.
- oscilação de humor típica da gravidez porque repetia a experiência, mas desta vez ia de monovolume e trazia, além do orgulho, a taça.







25.5.17

A (im)possibilidade do nosso amor.



Falaram-me de alguém que não sendo adepto de futebol era um fervoroso apoiante do Vitória, assíduo nos jogos em casa e fora. Alguém apaixonado pela paixão dos vitorianos e que ainda por cima não era de Guimarães, nem de Portugal. Tinha o mote para o que poderia ser uma boa reportagem. Depois de aceite pela direcção da revista avancei para o contacto. Uma mensagem profissional por facebook a propor a entrevista. A resposta foi devolvida no mesmo registo. Rapidamente agendamos a conversa para dali a dois dias.
Não voltei a pensar no assunto e confesso que na manhã daquela sexta-feira de Maio até achei que não fosse aparecer.
Usei um vestido branco que gosto muito. Giro e confortável para um dia quente, como o de ontem e o de anteontem.
Cheguei primeiro. Não esperei muito até que o vi entrar (também me lembro da t'shirt que usava) e dirigir-se a mim de braço estendido. Com duas sílabas disse-me o nome com uma pronuncia bem portuguesa. E ocupou o lugar à minha frente.
Contou-me da viagem da sua vida. Voltou à Rússia. Comoveu-se. Falamos de desporto e alimentação. De Guimarães e do Vitória também. Falamos coisas que não verbalizamos. Achamos naquela hora que tínhamos suspendido o tempo, mas os minutos continuavam a contar como nos lembrava o telemóvel dele que não parava de tocar e que ele silenciava.
Acabamos por sair com uma pressa disfarçada. Novo aperto de mão na despedida.
Saí dali e fui correr. Ele foi trabalhar.
Não acredito em impossibilidades, muito menos na impossibilidade de um amor. O nosso seria impossível para muitos. Chegou a ser para nós também. Naquele Sábado que figura agora entre os momentos mais bonitos, apaixonantes e cinematográficos da minha vida, despedimo-nos entre lágrimas e mensagens pirosas. Por instantes, julguei que jamais o veria, como nunca o tinha visto até à entrevista. Mas, entre um soluço que silenciei com uma lufada de ar profunda nos pulmões, vi-o abalroar o acesso a minha casa.
 - Foram insuportáveis os segundos que me vi sem ti - disse-me num tom baixo e sereno.
E eu...também quis mais. Mas, não foi fácil (às vezes, ainda não é). Precisamos de bíceps olímpicos. E de tantas vezes me alongar nos músculos dos seus braços e aí fazer moradia por baixo de um céu estrelado encoberto em melancolia, vontade e gás a fervilhar das duas garrafas de minis agitadas.
Amores impossíveis? O amor sincero é livre de protocolos.

PS: mais noites e mais fotos como esta mesmo que agora bebas sozinho.

23.5.17

12 ANOS!


Estão só na entrada da garagem. Mais à frente há um estendal com roupa a secar e juro que antes deste banho público ao estilo Paris Hilton embriagada andavam a embalar nenucos. É a esquizofrenia da pré-adolescência.
A Carolina, por exemplo, acordou decidida em fazer de mim a sua melhor amiga, mas tenho dúvidas se ao deitar não serei persona non grata.
Resolveu, com os 12 já feitos, que me beijaria ao despedir-se e sempre que a recolher na escola. Anda a desperdiçar abraços. Enrola-me os braços sempre que nos cruzamos nos trilhos da casa. Nesses instantes de corpos fundidos percebo que são escassos os centímetros que nos separam. E o biquini que exibe na foto ainda o usei no Verão passado.
Mais importante que lhe pedir emprestadas as sapatilhas de marca é perceber que sou uma mãe orgulhosa da sua cria, até porque beijos e abraços não se poupam.

11.5.17

Já pariste? Perguntam vocês.


Comecemos por responder à mais frequente das questões. Sim, continuo a usar saltos. E, podendo, tenciono fazê-lo até ao fim. A minha barriga, muito embora não denuncie imediatamente a gestação, já é grande o suficiente para ocultar outras partes do meu corpo e como tal sinto-me redonda que é como quem diz, gorda. Já cá cantam seis quilos a mais às 20 semanas. Boas notícias senhores, boas notícias. Seria épico na outra metade que falta acrescentar apenas outros tantos. A ver vamos.
Por estes dias sinto-me uma adolescente. Sem o rabo duro, sem as mamas espetadas e sem a ilusão que posso mudar o mundo. Se pudesse, aliás, circunscrevia o meu mundo aos 20 m2 do meu quarto e a única coisa que mudaria, enquanto aviava sacos de amendoins, era o canal da televisão.
Choro ao ver os peregrinos chegarem a Fátima. Choro ao ver cantar o Salvador. Choro a ver o Marley e eu. Esta merda não é normal.
Por outro lado, são cada vez mais frequentes e perceptíveis os movimentos da pequena criatura que engoli. Gosto de pensar que este ser é um guerreiro - receei muito perde-lo nos primeiros três meses da gravidez...ainda receio - que vai ser abençoado com o melhor da mãe e do pai. E que carrego em mim alguém muito especial.
A Constança está solidariamente grávida. Inclui o bebé em cada desenho, adormece a acariciar-me a barriga e já o toma como uma pessoa. Pergunta-me se já sabe as letras e a cidade onde vivemos. Explico-lhe que teremos de lhe ensinar tudo.
A Victória começa a aperceber-se que vai ganhar um irmão e a alegria que isso representa. E a Carolina sente ciúmes. Não conseguiu ainda descortinar qual o seu papel nesta hierarquia fraterna.
A barriga começou a pesar e está cada vez mais difícil usar jeans. É bom que o sol brilhe.

20.4.17

Humor...de grávida.

Vestido Serendipity, 35 euros
(encomendas através do blogue ou do Facebook)


Estas são imagens da Páscoa e as linhas que se seguem deveriam fazer jus à sua beleza. Pois, não farão.
Estou cansada. Com sono. Ardem-me os olhos. Pesa-me o baixo ventre. Perdi a conta às vezes que já me levantei para fazer xixi e hoje nem tempo tive para almoçar devidamente.
Acho que alguém devia repensar a expressão "humor de cão" e substituí-la por "humor de grávida".

12.4.17

Nem toda a grávida é uma grávida feliz!


Daqui a cerca de uma hora tenho uma consulta no meu médico assistente que me permite aquele acompanhamento básico, ainda assim, importante. Vamos medir as tensões e a barriga; ver o ph do xixi...  subir para a balança (!!!!)...Confesso que estou confiante. Ontem comi uma bola de berlim, mas tenho-me portado bem, sem excessos e sem a compulsão por comida que senti nas gravidezes anteriores.
A semana passada aproveitei também para começar, de forma muito moderada, a treinar. E foi o suficiente para, praticamente, não me mexer nos dias seguintes.
Estou na melhor fase da minha gravidez. Não sinto qualquer enjoo e a azia desapareceu. A barriga começa a notar-se cada vez mais, mas ainda não incomoda. Continuo a dormir na posição em que me apetece e a caber em toda a roupa, embora este Verão antecipado convide ao uso de vestidos frescos e confortáveis.
No entanto, grávida que é grávida, não tarda a queixar-se da escassez de indumentária. Porque a barriga não vai ser sempre assim fofa, brevemente vai ganhar proporções monstruosas. Vou começar a arrastar-me à medida que ela aumenta. Vou retirar anéis porque os dedos vão inchar. Vou sentar-se sempre de pernas abertas e o meu nariz vai ficar o dobro. A criatura que carrego vai achar por bem iniciar uma exploração minuciosa das minhas entranhas e vou sentir os pulmões chegarem-me à boca.
A gravidez é, sem dúvida, um estado de graça e vale cada sacrifício, mas não é fácil. De todo.Além das mudanças físicas, da sensação de nos sentirmos estranhas no nosso corpo, de não podermos usar aquilo que gostamos, do inevitável aumento de peso ao qual acrescentamos as alterações emocionais, tipo chorar ao ver uma andorinha, sentimo-nos, no início pelo menos, como se estivéssemos doentes. Na gravidez da Carolina, a primeira, lembro-me perfeitamente de perguntar à minha mãe se nunca mais me iria sentir bem.
Nem toda a grávida, apesar de consciente da decisão de ter um filho, é uma grávida feliz. A boa notícia é que passa a voar (ainda ontem comentava com o homem que estou praticamente a meio!) e depois de termos a criaturinha nos braços esquecemos aquela manhã em que vomitamos 30 vezes ou da noite em que embatemos de frente na parede numa das 20 viagens à casa de banho.
Eu, por agora, espero apenas não deixar a balança a chorar.

5.4.17

Queremos mesmo produzir filhos tiranos?


Ontem improvisamos o jantar. Bacalhau com broa para os adultos e nuggets com arroz para as crianças. Além disso, ainda as brindei com batata frita e permiti-lhes a loucura de as mergulharem em ketchup.
Tínhamos sopa também, recusada pelas três.
Quando me preparava para me sentar depois de não sei quantas vezes ter ido ao frigorífico, à gaveta~dos talheres e ao microondas, deparo-me com as duas mais pequenas a pedirem ovo estrelado. Respondi-lhes que não, que os ovos não estavam previstos e que ia, finalmente, sentar-me também para comer. Ao que o homem interfere para me questionar, "porque não lhes estrelas uns ovos? Só fazem bem!".
Respirei fundo e ainda cheguei a colocar o tacho no fogão. Mas, respirei fundo, outra vez, e disse, "não! Têm sopa. Que também faz bem e vai saciá-las se o jantar não lhes for suficiente". Ele concordou comigo, mas ambas torceram o nariz. Ainda assim, terminaram com um belo creme de legumes.
Sem exageros, eu diria que isto é educar. É sermos muro que não verga ao bel-prazer dos nossos filhos. Ou, pelo menos, não verga sempre porque também defendo que não ama quem nunca disse não e permitiu o sim, como tudo na vida com a devida dose.
Também no final de semana reencontrei familiares com quem há muito não privava. Um deles, meu primo, destacava-se pelo respeito que impunha às filhas. Era quase sempre criticado pelo excesso de autoritarismo, mas desta vez, desabafou comigo sobre como não conseguia impor limites ao neto e sempre que o tentava fazer levava com a reprimenda da mulher. "Não grites com o menino" nem quando joga à bola dentro de casa ou num acto desafiador te levanta a mão.
Imediatamente, lembrei-me do livro do psicólogo Javier Urra, "O Pequeno Ditador" que por acaso, ou nem tanto, já atingiu a 18ª edição.
O terapeuta acabou agora de lançar "O Pequeno Ditador Cresceu" e mais uma vez refere o que ele considera serem os "pais helicóptero" sempre a supervisionarem a criança, aflitos ao menor "aiii", preocupados para que não caiam, não sujem, não esfolem, não chorem, não comam terra. E neste capítulo, é tão mais seguro tê-los sentados no sofá agarrados ao ipad ou colados na TV.
Esta geração de pais - onde pela idade também me incluo - sobremima os filhos e tem a presunção de achar que os pode proteger sempre. Pois, haverá um momento em que a criança se vai equivocar e sentir um rei, ou rainha. Os nossos filhos são tão importantes como os outros. Não são menos, mas também não são mais. E é com base nesse pressuposto que devem ser educados.Para se tornarem adultos de bem.
Ao contrário do que acontece em países como Angola ou Quénia em que é impensável uma alteração das regras da casa e da estrutura familiar, nos países europeus passamos de um autoritarismo exacerbado pela figura do pai para uma deturpação imperdoável das hierarquias. E se o permitimos, teremos que estar prontos para no futuro pagar uma cara factura da nossa fraqueza. Porque, achamos nós, que para ganharmos o carinho dos filhos temos de nos deixar manipular por eles.
As crianças precisam de limites para evitar que se tornem tiranas e nos releguem para o papel de escravos.
No livro Javier Urra escreve que "há crianças com menos de sete anos que dão pontapés às mães e estas dizem isso não se faz enquanto sorriem". Eu já vi. Atrevo-me a perguntar quem não viu???
Querer e amar um filho não é dizer sim a tudo. Muito pelo contrário.
A minha pergunta é: queremos mesmo produzir filhos tiranos que se presumam mais do que os outros?
Eu, grávida do terceiro, definitivamente não quero!